Conhecendo a região de Champagne - França!
Um maravilhoso passeio pela região de Champagne, onde estive no mês de novembro passado (11/2007) visitando a Maison Moêt & Chandon e outras casas nas cidades de Épernay e Reims, além dos seus vinhedos nos arredores e em boa parte do Vallée du Marne. Depois de Champagne fui rever amigos queridos na Bourgogne (Dijon e Beaune), e também participando do lançamento anual do festejado “Beaujolais Nouveau” em Villefranche-Sur-Saône.Champagne é a região vinícola mais ao norte da França. O frio e o amadurecimento lento dos frutos conferem alta acidez, vital no processo vagaroso e prolongado de envelhecimento do champagne. Sua complexidade, entretanto, não se deve apenas ao clima: o solo com cal e três séculos de dedicação humana também participam para gerar esse vinho impar!
Originalmente, essa era uma área de vinhos tintos, feitos no outono e estabilizados durante o inverno, quando o frio interrompia a fermentação. Na primavera os vinhos eram aquecidos e voltavam a fermentar na garrafa, gerando uma leve efervescência. Esses vinhos frisantes jovens viraram moda na Inglaterra em meados do séc. XVII, ao fim do qual, os produtores de Champagne, liderados pelo monge beneditino Dom Pérignon (responsável pelas adegas da Abadia de Hautvillier), descobriram como controlar e refinar essa segunda fermentação. Nascia a era moderna do champagne.
Hoje, o champagne é geralmente um cuidadoso ‘corte’ de três cepas - Pinot Noir, Pinot Meunier e Chardonnay - e de diversos vinhedos (crus). Além disso, diferente de outros vinhos, ele mistura uvas de mais de uma safra. Pode-se fazer vinho de apenas uma safra, mas só nos melhores anos.
Com cerca de 300 milhões de garrafas anuais, o vinho espumante é a ‘raison d’être’ de Champagne. A maioria de seus valiosos vinhedos está nas mãos de 19.000 vinicultores e perto de 1/8 pertence a 264 ‘négociants’, entre eles os grandes estabelecimentos internacionais que determinaram a inalcançável reputação de Champagne em todo o mundo.
Champagne AOC (Appellation de Órigne Controlée) estende-se por 150km de norte a sul e 115km de leste a oeste, e contém 05 áreas vinícolas. A cidade de Épernay fica no centro das 03 maiores e mais renomadas dessas áreas: Montagne de Reims, Vallée du Marne e Côte des Blancs. Ao sul desta última fica a menos conhecida Côte de Sézanne, e no extremo sul da ‘appellation’, a 100km de Épernay, está Côte des Bar. Há no total 17 ‘grands crus’, 43 ‘premiers crus’ e 32.000ha de vinhedos.
Os muitos ‘négociants’ de Champagne compram a maioria das uvas de viticultores espalhados por toda a ‘appellation’, e sua localização em geral indica o tipo de vinho produzido. A mistura de vinhos para manter um estilo específico é processo complexo, e as maiores empresas empregam até 100 ‘crus’ diferentes (como a Moêt et Chandon com o seu ‘Brut Imperial cuvée’) para atingir o sabor desejado. Poucas cultivam suas próprias vinhas; a Bollinger e a Louis Roederer são exceções e suprem 75% de sua matéria-prima. Alguns ‘négociants’ compram tudo e não possuem vinhedo.
Os maiores ‘négociants’ costumam ter adegas em Reims ou Épernay. Em Épernay há muitos na Avenue de Champagne, e em Reims ao redor da Place du General Gouraud (Ruinart, Veuve Clicquot Ponsardin, Taittinger e Pommery). A maioria fica aberta e oferece visitas guiadas com degustações. Outro centro importante, com os melhores produtores de médio porte, é Ay e Mareuil-Sur-Ay, onde estão Bollinger, Billecart-Salmon, Deutz, Gosset e Philipponnat.
Os champagnes não-vintage mais vendidos são: Moêt & Chandon Brut Imperial, Veuve Clicquot Ponsardin Yellow Label, Lanson Black Label, Mumm Cordon Rouge e Piper-Heidsieck Brut.
Como indicado acima, a denominação (AOC) de Champagne se divide em 05 áreas de produção principais, cada qual vinculada a uma das três maiores cepas: Pinot Noir, Pinot Meunier e Chardonnay. Grande parte do champagne é elaborada com as três uvas provenientes de diferentes ‘crus’ ou ‘villages’ e em diversas proporções. Há mais de 12.000ha de Pinot Noir, 10.900h de Pinot Meunier e quase 9.000ha de Chardonnay.
Com clima limítrofe, variações pequenas de ‘terroir’ podem afetar muito a qualidade das uvas, então os vinhedos de Champagne são classificados segundo a qualidade pelo sistema ‘Échelle des Crus’ (Escada de Vinhedos). As 301 villages da denominação estão listadas, os 17 ‘grands crus’ com pontuação 100%, os 43 ‘premiers crus’ variando de 90 a 99% e o resto no nível inferior, entre 80 e 89%.
Montagne de Reims - Mais um platô do que uma montanha, Montagne de Reims forma um arco ao sul da cidade de Reims, com os vinhedos protegidos descendo rumo aos rios Vesle e Marne. O terreno não é homogêneo: os diversos micro-climas, aspectos e exposições das zonas geram vários estilos. O solo também varia, mas todos os ‘grands crus’ ficam sobre a camada de cal que caracteriza Champagne. Essa área inclui 09 dos 17 ‘grands crus’ da denominação e é conhecida pela Pinot Noir (41%), cuja qualidade garante a reputação das vilas ‘grands crus’ mais famosas: Mailly, Verzenay, Verzi, Ambonnay e Bouzy. A oeste de Ludes e em Petite Montagne, a sudoeste de Reims, a Pinot Meunier chama mais a atenção. Há ainda pontos importantes de Chardonnay, principalmente nas villages ‘premiers crus’ de Villers-Marmery e Trépail.
Vallée du Marne - Os vinhedos ficam do lado norte do Vale do Marne desde Tours-Sur-Marne rumo ao oeste, e dos 02 lados a oeste de Épernay até Saacy-Sur-Marne.
A maioria contém Pinot Meunier (63%) que, devido à brotação tardia e ao amadurecimento precoce, é menos vulnerável nesse vale baixo propenso a geadas. Menos refinada que a Pinot Noir e a Chardonnay, a Pinot Meunier é considerada uma base sólida e muita empregada pelas principais vinícolas por desenvolver-se rápido e ser frutada, suavizando as misturas e tornando-as mais acessíveis jovens.
Côte des Blancs - O nome dessa área ao sul de Épernay deriva do fato de dedicar-se quase exclusivamente ao cultivo de vinhas brancas. A maioria dos vinhedos tem orientação leste e fica sobre o mais puro subsolo belemnita, rico em minerais e elementos essenciais. Das cepas de Côte des Blancs, 97% são Chardonnay.
As provenientes dos 05 ‘grands crus’ - Cramant, Avize, Oger, Lê Mesnil-Sur-Oger e Chouilly - são as mais procuradas e têm os preços mais altos. Elas conferem frescor e fineza às misturas e, quando puras, como no ‘blanc de blancs’ de Salon, resultam em vinhos de grande intensidade e longevidade. Detalhe: É aqui na Côte des Blancs, no meio de um vasto e lindo vinhedo, que está situado o “Château de Saran”, da Moêt & Chandon... Magnífico, imponente, charmoso... Um verdadeiro palácio de reis!
Côte de Sézanne - Esse distrito de 1.360ha, em franco desenvolvimento, é uma continuação de Côte des Blancs separada apenas pelos pântanos de St. Gond. O subsolo é principalmente de argila e silte argilosa com partes de cal, e as vinhas são orientadas em sentido sudeste. Como em Côte des Blancs, a Chardonnay é a vinha mais plantada (62%), com cerca de 20% de Pinot Noir. Em parte devido ao aspecto favorável, os vinhos tendem a ser mais diretos e frutados do que os de Côte des Blancs e talvez mais rústicos e menos finos. Em geral essa área recebe a pontuação de 87% para as uvas brancas e 85% para as tintas na ‘Échelle des Crus’.
Côte des Bar - Essa área do ‘département de Aube’ abrange 1/5 (7.105ha) dos vinhedos de Champagne e é importante fonte de Pinot Noir madura, vigorosa e saborosa, fornecendo quase metade de sua produção na região. A maioria dos ‘négociants’ adquire uvas nessa área para fazer suas mesclas.
As três comunas que compõem Les Riceys (Ricey-Haut, Ricey-Haut-Rive e Ricey-Bas) são os únicos locais da França em que o vinho pode ser feito sob 03 denominações diferentes, quais sejam: 01 de espumantes (Champagne) e 02 de não espumantes (o tinto Coteaux Champenois e o Rosé des Riceys).
1. Notas interessantes:
1.1 - A marca mais famosa e vendida de champagne não-vintage é, de longe, a Brut Imperial da Moêt & Chandon. Dado o volume produzido (mais de 16 milhões de gfs por ano), a qualidade consistente é louvável. O novo rosé não-vintage pode rivalizar com o da Laurent-Perrier (considerado por renomados especialistas um dos melhores), e os vinhos ‘vintage’ têm classe e evoluem bem com a idade. O Dom Pérignon continua maravilhando graças ao talento do Enólogo Richard Geoffroy, porém em geral é consumido muito antes de seu auge, atingido com pelo menos 15 anos.
1.2 - Ruinart - A vinícola mais antiga da região de Champagne foi fundada em 1729 e é a única do grupo LVMH especializada em ‘Blanc des Blancs’ e ‘Chardonnay’. Com o lançamento de um Blanc des Blancs não-vintage e o ‘corte’ de várias safras topo de categoria e muito caro, L’Exclusive, agora são 03 vinhos. Mas sua reputação estabeleceu-se com o Dom Ruinart Blanc des Blancs vintage, que em geral combina ‘grands crus’ de Cote des Blancs com Chardonnay das melhores vilas de Montagne de Reims.
Enfim, o Champagne continua inigualável... Tem todos os elementos de um espumante perfeito: frescor e vivacidade que exaltam, aromas complexos e boca rica equilibrada por fina acidez... E, dependendo da companhia, o encantamento!

Em muitas regiões mundo afora se produzem espumantes, mas Champagne possui as marcas mais famosas e é a região padrão pela qual as demais são julgadas!
Por isso que eu, pessoalmente e fora daqui, prefiro os ‘nossos’ espumantes nacionais produzidos na região da Serra Gaúcha (Vale dos Vinhedos e Garibaldi - RS), onde o clima e solo (terroir) são muitos semelhantes ao de Champagne, já que seus sapatos também ficam sujos de cal ao caminhar por entre os vinhedos ali existentes.
E mais! O nosso espumante deve ser tomado com muito orgulho, pois é respeitado até por renomados enólogos da própria região de Champagne. Meu amigo Philippe Mével, responsável pela elaboração do melhor espumante nacional, é um deles! Experimente e comprove... Chandon, Marson, Cavalleri, Valduga, são ótimos... Bons goles!


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