Não sem razão, é a região onde mais gosto de estar quando vou a França, a última delas durante um bom período em 2007.
Com sua personalidade diferente e cheia de classe, os Bourgognes podem ser considerados uma espécie de “pós-graduação” para os apreciadores de grandes vinhos. Seus tintos e brancos são cheios de sutilezas e nuances inimitáveis! O sistema de denominações é realmente bastante complexo, em virtude do terroir privilegiado, e pode ser difícil se encontrar entre tantos nomes diferentes. Desculpem-me os leigos, mas descobrir os vinhos da Bourgogne é uma das melhores e mais gratificantes aventuras possíveis a um apreciador de bons vinhos, mas tome cuidado! Uma vez que você se apaixone pela Bourgogne, não há mais volta... E como as recompensas são muitas, não é nada difícil se apaixonar!
O que se pode esperar de um Bourgogne?
A marca registrada dos melhores Bourgognes tintos é sua incomparável classe, elegância e complexidade. São vinhos de conhecedores, cheios de sutilezas e sempre com grande finesse. Eles são elaborados com a casta Pinot Noir e expressam maravilhosamente o privilegiado terroir da Bourgogne - região onde vinhos de vinhedos a poucos metros de distância podem ter personalidades muito diferentes. Em geral, os bons Bourgognes apresentam riqueza e complexidade impressionante no aroma, que evolui bastante com o tempo. Na boca, são finos, macios e elegantes, bem proporcionados, mais delicados do que os tintos de Bordeaux ou do Novo Mundo. São vinhos únicos e insubstituíveis, sem paralelos ao redor do mundo, e que realmente vale a pena conhecer. Ao degustar um Bourgogne, busque mais por elegância, sutileza e complexidade do que por potência e concentração.
Os Bourgognes brancos, por sua vez, são simplesmente fantásticos. Para muitos, são os melhores do mundo. A uva Chardonnay atinge na região seu ponto máximo em elegância, complexidade e longevidade. Mesmo os Bourgognes mais simples, tanto tintos quanto brancos, podem ser muito charmosos e interessantes, de bastante personalidade.
Sistema de denominações da Bourgogne - O conceito do "Terroir"!
Na Bourgogne, o sistema de denominações é amplamente baseado no conceito de “terroir”. Elas se dividem em denominações Regionais, Distritais, Comunais, Premiers Crus e Grands Crus. As Regionais se referem a vinhos de uvas produzidas em todo o território da Bourgogne, a exemplo dos Bourgogne rouge e Bourgogne blanc, que trazem apenas o termo “Bourgogne” no rótulo. As Distritais se referem a vinhos de subdistritos definidos, como Chablis, Côte de Beaune, Mâcon etc. Em geral, eles levam no rótulo o nome do subdistrito em questão.
As Comunais se referem a vinhos de comunas ou vilas específicas, como Gevrey-Chambertin, Morey-Saint-Denis, Meursault, Vosne-Romanée etc. Eles levam no rótulo o nome da comuna em que são produzidos. Muitas vezes o vinhedo é mencionado no rótulo. As denominações Premiers Crus se referem a alguns locais - ou “climats”, como os franceses às vezes os chamam - que, por sua grande qualidade, foram classificados como “Premiers Crus”. Neste caso, o nome do vinhedo também aparece no rótulo, juntamente com o nome da comuna e do termo “Premier Cru”. É o caso, por exemplo, do “Nuits Saint Georges Clos de la Marechale Premier Cru”. As denominações Grands Crus são reservadas a alguns vinhedos excepcionais, de grande reputação. É a mais alta categoria no sistema de classificação da Bourgogne. No rótulo, levam o nome do vinhedo e o termo “Grand Cru”. Alguns exemplos: Clos de Vougeot, Mazis Chambertin, Charmes Chambertin, Corton Charlemagne etc. Quanto mais se sobe neste sistema de classificação, mais o local definido no rótulo vai ficando específico e - espera-se - maior é a qualidade dos vinhos. É óbvio que, mesmo dentre as diversas denominações, existem produtores muito melhores que outros. Na Bourgogne isto é especialmente importante.
As regiões da Bourgogne
CHABLIS
Os vinhos de Chablis estão entre os melhores e mais famosos brancos do mundo! Como todos os bons Bourgogne brancos, eles são elaborados com a uva Chardonnay. No entanto, trata-se de vinhos únicos, de grande personalidade, que não encontram paralelo em nenhuma outra região do mundo, nem mesmo nas outras áreas da própria Bourgogne. Isto se explica pelo clima bastante frio e pelo terroir da região, que lhe conferem um toque bastante austero e mineral, com uma acidez marcante, em contraponto à riqueza e untuosidade dos grandes brancos da Côte d’Or, mais ao sul. Chablis é o vinhedo mais setentrional da Bourgogne. Enquanto os Chablis de apelações comunais (aqueles que só trazem o nome Chablis no rótulo, sem mencionar o vinhedo) já podem ser muito bons, se forem de bons produtores, os Premiers Crus e Grands Crus estão entre os melhores brancos da França. São vinhos de grande longevidade, que às vezes levam 10 anos ou 15 anos para atingir seu apogeu. Alguns dos melhores Grands Crus vêm dos vinhedos de Vaudésir e Le Clos, enquanto muitos Premiers Crus também são excelentes (experimente o Chablis Montmains Premier Cru, do Joseph Drouhin, por exemplo!). Os Chablis mais simples de bons produtores podem ser ótimos. O Chablis normal do Drouhin já é uma delícia, uma combinação perfeita para ostras, mariscos e frutos do mar!
CÔTE D’OR
A Côte d’Or é o coração da Bourgogne, de onde saem a maioria dos mais reputados e melhores vinhos da região. Ela está dividida em Côtes de Nuits - mais ao norte, ao redor da cidade de Nuits-St-Georges (ao sul de Dijon) - e Côtes de Beaune - mais a sul, ao redor da cidade de Beaune. Uma das mais prestigiosas regiões de vinhos do mundo, a Côte d’Or produz vinhos tintos e brancos maravilhosos, entre os melhores que existem, e cada um com sua personalidade própria. Explorar toda a riqueza e complexidade deste verdadeiro “mosaico bourguignon” talvez seja uma das maiores e mais deliciosas aventuras para o apreciador de vinhos!
CÔTE DE NUITS
De maneira geral, as Côtes de Nuits são mais reputadas por seus grandes tintos, incluindo diversos famosos Premier Cru e Grand Cru. Entre as denominações mais reputadas estão a própria Nuits-St-Georges, Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny, Vougeot, Morey-St-Denis e Gevrey-Chambertin, além de Grands Crus como Clos de Vougeot, Musigny, Chambertin, Échezeaux e muitos outros de grande prestigio. As principais comunas são: Fixin, Gevrey-Chambertin, Morey-St-Denis, Chambolle-Musigny, Vougeot, Vosne-Romanée e Nuits-St-Georges. Com a exceção de Corton, que fica na Côte de Beaune, todos os Grand Crus tintos estão na Côte de Nuits.
CÔTE DE BEAUNE
As Côtes de Beaune, po sua vez, são reputadas por seus grandes brancos, como os famosos Puligny-Montrachet, Meursault, Chassagne-Montrachet, Aloxe Corton, assim como os Grands Crus de Montrachet, os Corton Charlemagne e outros. Todos os Grand Crus brancos da Bourgogne, com exceção do Musigny, estão na Côte de Beaune. Também há vinhos tintos excelentes na Côtes de Beaune, como os Pommard, Volnay, Aloxe-Corton, e especialmente o fabuloso Grand Cru Corton - em geral mais delicados do que os da Côte de Nuits, e sempre muito perfumados e elegantes.
CÔTE CHALONNAISE
A Côte Chalonnaise produz alguns vinhos muito saborosos, mais acessíveis do que os grandes vinhos da Côte d’Or, mas que podem ser verdadeiros achados. É o caso dos Mercurey, a mais reputada denominação desta sub-região, com seus tintos ricos e saborosos, com toda a personalidade da Pinot Noir, a exemplo do Mercurey Croix Jacquelet. Outras denominações de importância são Rully, Givry e Montagny. A Côte Chalonnaise está ao sul da Côte d’Or e a norte do Mâconnais.
MÂCONNAIS
Ao sul da Côte Chalonnaise e a norte de Beaujolais está a região do Mâconnais, que circunda a cidade de Mâcon e produz alguns bons tintos e, principalmente, brancos da Bourgogne. São vinhos com pretensões mais humildes do que os grandes da Côte d’Or, obviamente, mas também podem ser ótimos achados, de excelente relação qualidade/preço e bastante personalidade. Entre os brancos, os mais reputados são St-Véran, Mâcon-Villages, Mâcon-Supérieur e o famoso Poully-Fuissé.
BEAUJOLAIS
Ao sul da Bourgogne, Beuajolais produz alguns tintos bastante saborosos, de leveza e frescor, perfeitos para acompanhar frios e salsichão, por exemplo. Os melhores são os das comunas de Moulin à Vent, Fleurie e Saint Amour. Os Beaujolais-Villages são elaborados apenas com uvas de comunas classificadas como de melhor qualidade, e costumam ser melhores do que os apenas classificados como “Beaujolais”. Alguns produtores, como Joseph Drouhin e Gerard Gelin (Domaine des Nugues) fazem Beaujolais de ótima qualidade, que nada têm a ver com os piores e mais comerciais exemplares da denominação, que costumavam chegar ao Brasil, principalmente como “Beaujolais Nouveau”.
Mesmo os “Beaujolais Nouveau” podem ser bastante bons e agradáveis, quando elaborados por um bom produtor. Os Beaujolais em geral são vinhos com um estilo alegre e descompromissado, que podem agradar bastante e continuam a ser um dos mais consumidos e apreciados na França para ocasiões informais ou acompanhando petiscos diversos. São tintos bastante gostosos, que não merecem o preconceito criado no Brasil pelos piores Beaujolais Nouveau que aqui chegavam tempos atrás.
Bons goles!
-------------------------------------